Narrativas de Carreira – Um estudo sobre empregadas domésticas

  • Cássia Alves
  • Léia da Silva Braga

Resumo

INTRODUÇÃO: As empregadas domésticas adquiriram espaço na legislação trabalhista brasileira com atraso histórico. Este é um dos indicativos que permite identificar a desvalorização de tal profissão e sua invisibilidade social. Neste sentido, a narrabilidade de carreira é estimulada a fim de compreender o valor que esta mulher atribui à sua história de vida e de trabalho (SAVICKAS et al., 2009). Considerando esse aspecto, este estudo tem por objetivo identificar a construção de carreira de empregadas domésticas, apresentando resultados parciais. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A proposta de Emenda Constitucional (PEC) número 72/2013 e após a lei 150/2015 foi o primeiro passo para a regulamentação da profissão, até então à margem dos direitos constituídos por lei (BRASIL, 2015).  Outro aspecto que denota desprestígio no trabalho doméstico é a conexão do mesmo com o histórico escravista e a domesticação da mulher no contexto brasileiro (SORATTO, 2006).  Além disso, as relações de trabalho doméstico são essencialmente efetivadas nas trocas entre empregado e empregador (ARAÚJO, 2015), apresentando a ambivalência na relação entre ambos, pois há trocas de carinho e demonstrações de afeto no ambiente de trabalho, mas não deixa de existir a hierarquia (BRITES, 2007). Considerando esses aspectos que interferem no trabalho da empregada doméstica é importante compreender como essa trajetória profissional tem sido compreendida uma vez que ainda existem poucos estudos que investigam a construção desta carreira (PINHEIRO et al., 2016). MATERIAL E MÉTODOS: A pesquisa configura-se como um estudo exploratório e qualitativo (GIL, 2008). Participaram quatro mulheres com de idades entre 25 e 55 anos, com tempo de experiência na carreira compreendidos entre dois e 37 anos de experiência. A forma de acesso foi através do método bola de neve, sendo realizadas entrevistas semiestruturadas (VINUTO, 2014), e analisadas através da análise temática (BRAUN; CLARK, 2006). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário da Serra Gaúcha (protocolo número 81821818.6.0000.5668). RESULTADOS E DISCUSSÕES: Foi possível identificar o impacto da desvalorização e o preconceito associados à profissão nas experiências das participantes, o que Costa (2017) relaciona com a desproteção social da categoria, por ter poucas diretrizes que a regulamentam. Esses elementos também estão relacionados com o trabalho infantil. As participantes relataram que iniciaram o trabalho como empregada doméstica ainda no início da adolescência. Além disso, foi possível identificar que duas participantes começaram a trabalhar como empregada doméstica com o objetivo de ter autonomia financeira. Todas as entrevistadas trabalham também como diaristas, para compor sua renda. Também, foi identificado que poucas conhecem a Proposta de Emenda à Constituição das empregadas domésticas. Três participantes têm  contrato com registro em carteira de trabalho e uma tem contrato informal com seus empregadores. Sobre o trabalho, relataram que têm sensações ambivalentes em relação às atividades que realizam, demonstrando afeição pela autonomia e dinamismo e, ao mesmo tempo, insatisfação com tarefas repetitivas e demoradas. Duas entrevistadas relatam preocupação quanto a sua saúde devido ao esforço necessário em sua rotina e todas referem estimar sua profissão, embora duas participantes pretendem mudar de profissão. CONCLUSÃO: As pesquisadas, através do processo de narrativa de suas carreiras puderam tecer ligações entre sua história de vida e trabalho. Observou-se que a construção de carreira era entendida como forma de identificar parte de sua representação na sociedade e como forma de se reconhecer, por meio de sua atividade laboral, com os prazeres e desprazeres contidos nesta (Maree, 2015). Questões relativas  ao trabalho infantil, às atribuições específicas dos trabalhos domésticos, desvalorização e experiência de preconceito, são marcadores que demonstram ser necessárias mais discussões no contexto social sobre a necessidade das profissionais terem clareza dos seus direitos profissionais.

Publicado
2018-06-26
Seção
Grupo de Trabalho 1: Direitos Humanos e Transformação Social