PANORAMA DO HIPERCONSUMO EM TEMPOS DE COVID-19

REFLEXÕES A PARTIR DA DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO E INDÚSTRIA CULTURAL

  • Cleide Calgaro Universidade de Caxias do Sul
  • Kamilla Machado Ercolani Universidade de Caxias do Sul
  • Débora Bós e Silva Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Resumo

INTRODUÇÃO: O hiperconsumismo caracteriza-se pelo consumo descontrolado, quando o sujeito consome produtos sem uma real necessidade biológica, gerando aumento na produção de produtos e, como consequência, danos irreparáveis ao meio ambiente. O estudo realizado pela Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) demostrou que os brasileiros aumentaram suas compras on-line (AGÊNCIA BRASIL, 2020), com o isolamento social e a conduta de inúmeros consumidores estocando alimentos, medicamentos etc., e uso majorado de plásticos e embalagens, que deterioram o meio ambiente. Os impactos psicológicos que a pandemia desperta ocasionam em compras excessivas de objetos supérfluos, contratação de plataformas de streaming, uma vez que as incertezas afetam no comportamento. O trabalho visa analisar os reflexos do hiperconsumo durante a pandemia e o estudo da “Dialética do esclarecimento” dos autores Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: “Esclarecimento é a saída do homem da menoridade pela qual é o próprio culpado” (KANT, 1985, p. 100/117). A menoridade “é a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem direção alheia”, o indivíduo se encontra em um estado de heteronomia onde permanece sujeito a vontade de outrem, Kant expressa que a causa da menoridade é culpa do próprio homem por sua covardia e preguiça. Ao final Kant se apropria da frase de Homero “Sapere Aude”, ouse saber, continuar na menoridade quando o recebe-se uma informação e não a passa pelo processo crítico e tribunal da razão significa não buscar conhecimento e não chegar ao estado da autonomia. A limitação ao esclarecimento está no próprio homem que não busca conhecimento, que se mantem permanentemente em uma situação de comodismo. Conhecimento e poder são sinônimos. Ao analisar o primeiro capítulo da obra em tela, mesmo que não explicitamente enunciado estão em debate em confronto com as teses da Kant e ressaltam que esclarecimento é “totalitário” e é “a inverdade está naquilo que seus inimigos lhe censuram” e que tira o medo dos homens, vez que anteriormente estava vinculado ao mito. A indústria cultural é um produto do capitalismo tardio, que induz a lógica consumista e designa-se como a indústria da diversão de massa, com a padronização comportamental e a massificação de pessoas e tem seus pilares o entretenimento como conjunto de reproduções que induz ao indivíduo não pensar ou refletir e consequentemente o torna alienado, corrompido pelo divertimento de alto nível e pela pulverização de conhecimento, para servir-se como base de uniformizar a cultura e proporcionar ao homem suas necessidades, que não são as básicas para sua sobrevivência. A cultura é uma mercadoria paradoxal que é submetida à lei de troca não sendo uma troca em si, mas sim, uma ideologização da cultura, os indivíduos tornam-se inconscientes da padronização social, que implementa a dessubjetivação convertendo-se no hiperconsumo. MATERIAL E MÉTODOS: A pesquisa tem natureza teórica e o método utilizado foi o analítico dedutivo, a partir do estudo e leitura de obras relacionadas ao tema. CONCLUSÃO: O controle que a indústria cultural produz dá-se pela diversão, criando-se um pensar de acordo com o senso comum, esquece-se de questionar, ofusca a percepção dos indivíduos, torna-se a própria ideologia. O isolamento social ampliou o uso das redes sociais por parte das lojas induzindo ao consumo, sendo a diversão é a promoção da impotência. Através do consumo gerou-se o simbolismo da felicidade trabalhando o imaginário dos indivíduos e criando-se produtos através da dominação e difusão, assim desarticula qualquer manifestação ou revolta contra o sistema. O ser humano torna-se um mecanismo do negócio e é um instrumento de trabalho e de consumo, um objeto manipulado ideologizado pelas classes dominantes. O desdobramento do desencantamento do mundo através da realidade imposta pelo capitalismo tardio, tem análise crítica da posição de poder ocupada pela ciência na sociedade. O processo de revogação da autonomia da arte, através das estratégias da cultura de massa, totalmente tecnificada, igualmente submetida à esfera da racionalidade técnico-cientifica, sendo o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade, a racionalidade da própria dominação, faz ampliar o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesmo. O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural, pois a dominação é tão imensa que até mesmo o mais distraído consome abertamente. Portanto, a sociedade precisa adotar uma nova racionalidade de consumo sustentável, sem o adestramento imposto pela indústria cultural.

REFERÊNCIAS

 

AGÊNCIA BRASIL, Hábito de consumo adquirido na pandemia deve permanecer após covid-19. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-05/habito-de-consumo-adquirido-na- Acesso em: 10. Julho 2020.

 

ANTUNES, Paulo de Bessa. A Tutela Judicial do Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005.

 

BAUMAN, Zygmun. Vidas para o Consumo: A transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

 

BECK, Ulrick. Sociedade de Risco. São Paulo: Editora 34, 2010.

 

KANT, I. Resposta à pergunta: que é “Esclarecimento”? In: ______. Textos seletos. Tradução de Floriano de Sousa Fernandes. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 100-117.

 

HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor. Dialética do Esclarecimento – Fragmentos Filosóficos. Tradução Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

 

MOLINARO, Carlos Alberto. Racionalidade ecológica e estado socioambiental e democrático de direito. Dissertação (Mestrado em direito) – Faculdade de Direito, Pontifica Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.

 

WEBER, Max. Ciência e política. Duas vocações. 16ª ed. Tradução de Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Editora Cultrix, 2000.

 

Biografia do Autor

Cleide Calgaro, Universidade de Caxias do Sul

Pós-Doutora em Filosofia e em Direito ambos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Doutora em Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, na condição de taxista CAPES. Doutoranda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Mestra em Direito e em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul – UCS. Atualmente é Professora da Graduação e Pós-Graduação em Direito na Universidade de Caxias do Sul. É Líder do Grupo de Pesquisa “Metamorfose Jurídica” da Universidade de Caxias do Sul-UCS e Vice-Líder do Grupo de Pesquisa “Filosofia do Direito e Pensamento Político” da Universidade Federal da Paraíba-UFPB. Atua como pesquisadora no Grupo de pesquisa “Regulação ambiental da atividade econômica sustentável (REGA)” da Escola Superior Dom Helder Câmara e no CEDEUAM UNISALENTO - Centro Didattico Euroamericano sulle Politiche Costituzionali na Università del Salento-Itália. É membro do Comitê Assessor de Ciências Humanas e Sociais da FAPERGS: Membro Titular (2019-2021). Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1840-9598. CV: http://lattes.cnpq.br/8547639191475261. E-mail: ccalgaro1@hotmail.com

Kamilla Machado Ercolani, Universidade de Caxias do Sul

Mestranda em Direito pela UCS

Débora Bós e Silva, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

Advogada. Conciliadora Cível. Assessora em Gabinete de Juiz de Direito (fev/2015 a fev/2016). Juíza-Leiga (2013 a 2015). Especialista em Relações Internacionais (Faculdade Damásio). Pós-Graduanda em Direito Processual (PUC/MG). 

Publicado
2020-12-11