ALTERAÇÕES TIREOIDIANAS NOS PERÍODOS DE ALTA E BAIXA EXPOSIÇÃO A AGROTÓXICOS EM TRABALHADORES RURAIS DE FARROUPILHA-RS

Resumo

INTRODUÇÃO: Atualmente, os agrotóxicos não persistentes têm sido amplamente utilizados para fins agrícolas, sendo os organofosforados (OPs) os representantes contemporâneos mais aplicados em todo o mundo para o controle de pragas em ambientes agrícolas (SOKOLOFF et al., 2016; KOUREAS et al., 2012). Os agrotóxicos não persistentes modernos podem interferir na função tireoidiana através da interação com os receptores desta glândula, ligando-se ao transporte de proteínas, atuando nos mecanismos celulares de absorção, ou por meio da modificação do metabolismo dos hormônios da tireoide (FRÉCHOU et al., 2002). O objetivo deste estudo foi analisar os níveis séricos de hormônios tireoidianos, comparando informações durante períodos de baixa e alta exposição a agrotóxicos. MATERIAL E MÉTODOS: Foi realizado um estudo longitudinal, com 122 agricultores e seus familiares, com idades entre 18 e 70 anos. Foi aplicado um questionário padronizado, além da coleta de sangue, em dois períodos distintos: baixa exposição aos agrotóxicos (maio e junho) e alta exposição (setembro e outubro). A análise descritiva foi realizada por meio das medidas de tendência central e distribuição de frequência; e bivariadas, com uso dos testes t de Student e Wilcoxon. RESULTADOS E DISCUSSÕES: Dos 122 indivíduos, 61,5% eram homens e a média de idade foi de 45,6 anos. Com relação a escolaridade, os participantes tiveram 7,9 anos de estudo, resultado semelhante ao encontrado por outros trabalhos de diferentes regiões brasileiras (ARAUJO et al., 2007; FARIA et al., 2007, 2009). Disseram ter manipulado ou aplicado agrotóxicos durante algum momento da vida 77,9% dos participantes. Ditiocarbamatos foram aplicados por 75,4%, organofosforados por 63,1% e organoclorados por 15,6% dos agricultores. Quando comparadas as médias dos níveis hormonais, observou-se que houve diferença significativa entre os períodos de baixa e alta exposição aos agrotóxicos em relação aos níveis de tiroxina (T4) livre e total. A variação de T4 total é semelhante aos resultados encontrados em um estudo longitudinal com floricultores mexicanos. No período de menor exposição a OPs, a prevalência de níveis elevados de T4 total foi maior (LACASAÑA et al., 2010). Outros estudos mostraram valores reduzidos de T4 total em trabalhadores expostos a agrotóxicos (TOFT et al., 2006). Embora o nível sérico total de T4 seja influenciado por outros fatores que interferem na globulina ligada à tiroxina, a similaridade entre os resultados encontrados sugere uma associação entre a exposição a agrotóxicos e alterações nos níveis desse hormônio. CONCLUSÃO: O estudo caracterizou os agricultores de Farroupilha, sugerindo uma associação entre a alta exposição de agrotóxicos e a redução dos níveis séricos de T4 total. Dado o intenso uso de agrotóxicos em ambientes agrícolas no Brasil, outras pesquisas devem ser realizadas para avaliar os efeitos a longo prazo dos produtos mais recentes, em relação a função tireoidiana, utilizando metodologias para reduzir possíveis interferências nos resultados.
Publicado
2018-12-28
Seção
Saúde e Ciências Agroveterinárias - Resumo Expandido