A AMEAÇA PELA TÉCNICA E A DEVASTAÇÃO PELO CONSUMO: UMA LEITURA DA QUESTÃO AMBIENTAL À LUZ DE HANS JONAS E HANNAH ARENDT

  • Lucas Dagostini Gardelin Universidade de Caxias do Sul
  • Cleide Calgaro Universidade de Caxias do Sul

Resumo

INTRODUÇÃO: A problemática atinente ao avanço tecnológico, ao império do consumo e à depredação ambiental vem, continuamente, incitando crescentes intervenções na arena de discussão coletiva. A questão ambiental goza, hoje mais do que nunca, de notável imperatividade. O presente trabalho pretende, nessa seara, mobilizar perspectivações críticas para o enfrentamento de tal dilema, divisando na busca dialógica de possíveis interlocutores uma fonte de prolífica iluminação. Neste sentido, o apelo endereçado às contribuições de Hans Jonas e Hannah Arendt vê-se justificado na medida em que tais autores, inobstante as distinções aferíveis em seu corpo de pensamento, apresentam importantes pontos de convergência, especialmente no que diz respeito à predominância da técnica e do consumo como elementos caracterizadores da modernidade. O método de abordagem utilizado na confecção do presente estudo é o analítico, ancorado em pesquisa bibliográfica. RESULTADOS E DISCUSSÕES: As reflexões jonasianas, calcadas sobre a expansão predatória da técnica, o louvor ao utopismo do progresso e a radicalidade de um novum ético pautado pela responsabilidade, fermentam indispensáveis contributos à construção de uma crítica ambiental. O responsabilizar-se pelo mundo e pela vida, humana e extra-humana, ante a insondabilidade da civilização tecnológica representa um chamado à prudência e à defesa do humano e do natural. O pensamento de Hannah Arendt, por sua vez, ao promover profunda e crítica análise da sociedade consumista de massa, concebida sob a égide da necessidade e do trabalho e sob a vitória do animal laborans, germina o alerta sobre a alienação e devoração do mundo pelo consumo, seus riscos humanos e ambientais: o horizonte marcado pela negação da mundanidade, pelo deserto ecológico e pelo legítimo apequenamento do homem, reduzido a mero autômato do infindável processo de satisfação vital. CONCLUSÃO: Assim, ao passo que Jonas objetiva a preservação da vida através de um novo modus vivendi humano-natural, Arendt assenta suas considerações num plano eminentemente político-filosófico, com fundamento na liberdade humana e no mundo compartilhado e construído pelos homens. À parte as divergências que podem ser mobilizadas em suas reflexões, os autores comungam da inquietude perante a absorção predatória do homem e do mundo pela técnica e pelo consumo. Se a modernidade se encontra irresistivelmente sob seu domínio, impõe-se como necessário o seu redimensionamento: trata-se simplesmente de romper com o “utopismo tecnológico”, na expressão de Jonas, e de resistir à “vitória do animal laborans”, como argumenta Arendt. Daí a radicalidade de um novo pensar sobre a crise ambiental.

 

REFERÊNCIAS

 

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Biografia do Autor

Lucas Dagostini Gardelin, Universidade de Caxias do Sul
Acadêmico do Curso de Direito da UCS
Cleide Calgaro, Universidade de Caxias do Sul

Doutora em Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Pós-Doutora em Filosofia e em Direito ambos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. Doutoranda em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Mestra em Direito e em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul – UCS. Atualmente é Professora e pesquisadora no Programa de Pós-Graduação – Mestrado e Doutorado - e na Graduação em Direito da Universidade de Caxias do Sul. É vice-líder do Grupo de Pesquisa “Metamorfose Jurídica” e do Grupo de Pesquisa “Filosofia do Direito e Pensamento Político” da Universidade Federal da Paraíba-UFPB. Também atua como pesquisadora no Grupo de pesquisa “Regulação ambiental da atividade econômica sustentável (REGA)” da Escola Superior Dom Helder Câmara. CV: http://lattes.cnpq.br/8547639191475261. E-mail: ccalgaro1@hotmail.com

Publicado
2018-12-28
Seção
Ciências Jurídicas e Sociais - Resumo Expandido