JORNALISMO COLABORATIVO E COMPARTILHAMENTO DE INFORMAÇÃO NA INTERNET: ANÁLISE DE RELATOS DE VIAGENS BACKPACKER NO BLOG DO MOCHILEIROS.COM

Resumo

INTRODUÇÃO/FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: O compartilhamento de experiências e informações tornou-se mais dinâmico e acessível com as tecnologias digitais, o que proporcionou ao receptor a possibilidade de ser também um emissor em potencial (CASTELLS, 2010; JENKINS, 2007). Blogs de usuários da web são canais de comunicação, chamados de jornalismo colaborativo (VARELA, 2007), que, muitas vezes, prestam serviço aos leitores tanto quanto a mídia tradicional (BARBOSA; GRANADO, 2004; ORIHUELA, 2007). Construído coletivamente pelos internautas, o blog do Mochileiros.com reúne conteúdo sobre turismo backpacker (mochilão), forma alternativa de viagem com feitio econômico, independente e flexível (PEARCE; LOKER-MURPHY, 1995; KRIPPENDORF, 2001). Esses relatos conversam diretamente com a comunicação social, pois tem como essência a narrativa de fatos observados e vivenciados, além de serem experiências únicas e subjetivas, características encontradas nas linguagens jornalística e literária (CHAPARRO, 2008; PONTE, 2005; LOPES, 2010). Diante desse contexto, este estudo objetiva analisar as construções narrativas de relatos de viagem produzidos por mochileiros no blog do Mochileiros.com a partir de aspectos do formato e conteúdo apresentados por esses textos. MATERIAL E MÉTODOS: No âmbito metodológico, utilizou-se a Análise de Conteúdo (BARDIN, 2010), que permite um olhar tanto quantitativo quanto qualitativo do objeto empírico. Foram selecionados previamente dez relatos de viagem publicados no blog do Mochileiros.com no período de janeiro a dezembro de 2017, escritos por colaboradores com blog e sem blog próprio. As narrativas foram analisadas a partir de quatro categorias determinadas com a exploração desse material e de estudos teóricos: o leitor importa, a coloquialidade da escrita, a subjetividade da linguagem e o conteúdo sociocultural do relato. RESULTADOS E DISCUSSÕES: Todas as narrativas analisadas apresentam as quatro categorias, umas com mais visibilidade e destaque em certos relatos do que em outros. Ainda, é visível a mescla constante de categorias, não sendo possível realizar a análise sem ao menos mencionar alguma relação entre elas, pois estiveram entrelaçadas ao longo de todos os textos. A categoria mais presente nas narrativas foi a subjetividade da linguagem, mesmo nos relatos mais objetivos, uma vez que são textos sobre a experiência de um indivíduo que fala de si. Como os relatos buscam contar o que foi realizado, além de impressões e sensações, são incluídas informações de serviço – aquelas com utilidade prática para quem está lendo – e aspectos socioculturais e curiosidades do local de destino, o que está diretamente associado à linguagem jornalística e à subjetividade do autor pela seleção de informações incluídas no texto. Dessa forma, a linguagem literária e pessoal – relato da experiência – se mistura com a linguagem jornalística – informação e relato dos acontecimentos. CONCLUSÃO: A partir das leituras e da análise de cada narrativa, percebeu-se que o relato de viagem é um gênero textual complexo. Consiste em uma linguagem híbrida, com características do jornalismo e da literatura, e os textos são muito diferentes entre si sem perder a unidade do gênero. A estrutura, a narrativa e o conteúdo desses relatos variam conforme o estilo da viagem, o perfil do viajante e as disposições do sujeito como autor. As pessoas experimentam e sentem os acontecimentos de forma diferente e única por causa de seus valores e bagagens emocionais, sociais e de conhecimento. Do mesmo modo, o exercício jornalístico não torna o profissional imune a sua pessoalidade; esta é amenizada pelas técnicas do jornalismo para que não fique em evidência, visto que a profissão tem uma responsabilidade ético-social intrínseca que precisa – ou pelo menos deveria – ir além do sujeito. Portanto, os relatos de viagem mostram diferentes possibilidades de união entre jornalismo e literatura que pode ser útil para o enriquecimento de produtos comunicacionais e jornalísticos. A transmissão de informações sem perder a liberdade narrativa e imaginativa, como em textos literários e relatos de viagem, tende a valorizar o relato jornalístico.

Biografia do Autor

Meline Mella, Centro Universitário da Serra Gaúcha
Graduanda do curso de Jornalismo
Publicado
2019-01-04