ÚLTIMA PARADA 174 E A SEGREGAÇÃO NATURALIZADA: A DIS(IN)CRIMINAÇÃO É INTRÍNSECA AO SER?

  • Augusto Fênix Moura Varela Centro Universitário da Serra Gaúcha - FSG

Resumo

INTRODUÇÃO/FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Retirado dos braços de sua mãe (a personagem Marisa, vivida pela atriz Cris Vianna) – dependente química – ainda bebê pelo chefe do tráfico local na capital do Rio de Janeiro; Alessandro (estrelado pelo ator Marcello Melo Jr.), ao ser adotado pelo último, cresce dentro de uma esfera totalmente prejudicial à formação de sua concepção moral e desenvolvimento social, convivendo com tudo que uma criança em processo de maturação não poderia conviver.  Pobre, marginalizado e de estrutura familiar debilitada; Alê – como passa a ser chamado pelos amigos após atingir certa idade –, sucumbe àquilo que não era por menos se esperar diante do cenário catastrófico ao qual se encontrava: o crime. Paralelamente, há alguns quilômetros dali, Sandro (protagonizado pelo ator Michel Gomes), cai em pesar ao presenciar o óbito de sua mãe, vítima de latrocínio no bar do qual era dona, em uma região periférica de São Gonçalo, também no estado do Rio de Janeiro. Desolado, o menino, mesmo com o total apoio de sua tia após a tragédia, foge de casa rumo à capital. A trama se desenrola narrando o caminho que os dois percorrem até se encontrarem e desencontrarem por intermédio do destino. Baseando-se em fatos reais, a película também relata episódios dramáticos que ocorreram no país, tal como o Massacre da Candelária e o Sequestro do Ônibus 174. Porém, apesar de ambos os personagens discorrerem e terminarem sob a sombra da delinquência, estes, até esse fim, advieram de origens diferentes. A indagação que o trabalho propõe, aflora sobre a capacidade do ser humano de segregar e discriminar seu semelhante simplesmente por este pertencer a outro seio, dificilmente levando em conta a sua individualidade e trajetória. MATERIAL E MÉTODOS: Empregou-se como metodização a dialogia; cuja qual se fez entre a revisão bibliográfica de literatura consoante – embasando-se fundamentalmente na pesquisa de Norbert e John S. – e a análise fílmica da obra cinematográfica nacional dirigida por Bruno Barreto: Ùltima Parada 174, de 2008 esta última, utilizada essencialmente como alegoria, a fim de ilustrar os conceitos e teorias abordados. O presente trabalho tem, portanto, o objetivo de estudar e relacionar os dados obtidos de tais fontes, a fim de instituir um compilado do conhecimento referente ao tema, visando a busca de seu melhor entendimento e associação. RESULTADOS E DISCUSSÕES: Sob o olhar dos autores, em seu livro Os Estabelecidos e os Outsiders; Norbert Elias e John L. Scotson discorrem acerca das relações interpessoais e extragrupais entre os indivíduos habitantes de uma pequena comunidade sobre o território Inglês. O que lhes chama a atenção, logo no primeiro contato, é a carência de divergências relevantes inerentes a ambos os grupos, cujo os quais são diferenciados e nominados pelos primeiros homonimamente com o título da obra. Apesar de nesta vizinhança não haver sinais latentes de distinção, o contrário acontece. Coexistem dois coletivos de semelhante grau econômico, étnico e cultural, porém, discriminados e estratificados entre si por meio de suas próprias concepções a respeito de outrem, utilizando como parâmetro estigmatizatório apenas o período de habitação de cada família naquele local. Aqueles que se autodenominam superiores ficam com a configuração de estabelecidos. Os demais, julgados por esses como inferiores, adotam a de outsiders. Mas o que faz um grupo discriminar o outro? Diferente do que consiste o estudo de Gustavo Márquez (et al.), onde as relações de desigualdade e paridade são reguladas quase que exclusivamente pelo poder socioeconômico – e este, pelo acesso reservado à determinados contextos e esferas sociais –, Norbert e John examinam o problema através de outra ótica: as relações de valor concebidas encima do imaginário e da percepção do outro. Onde se estabelecia os residentes mais antigos da comunidade, também se concentrava o núcleo de poder. As posições mais favoráveis eram sempre destinadas a eles, pois creditavam-se ser os únicos destinatários dignos para tal. A consumação e a centralização desse privilégio se abastecia basicamente na sólida ligação que o círculo mantinha entre seus membros – atitude que não se percebia nos indivíduos do outro conjunto – e pela estigmatização destes para com aqueles pelos mesmos motivos, a excluir todo o averso fora do contexto proposto pelo grupo. A justificava aplicada que se via para a segregação, era substancialmente a da proteção dos pilares que constituíam a união do mesmo; por julgarem os demais dentro de seus próprios preconceitos, coletivamente, impróprios. CONCLUSÃO: Ainda utilizando a título de exemplo a situação das crianças e jovens mais pobres ilustrada pelo filme; estes, por muitas vezes não disporem do mínimo de suas garantias fundamentais, como o acesso à educação e ao mercado de trabalho, por exemplo; ficam sujeitos às determinações do meio social em que convivem, que, nessas mesmas condições nem sempre utilizam de artifícios bem aceitos pelas sociedades economicamente mais desenvolvidas para a sua sobrevivência. Entretanto, apesar destes já se encontrarem propriamente exclusos pelas circunstâncias materiais atinentes à sua exclusão (no caso, a pobreza); a segregação extragrupal e a conexão interpessoal transcendem além desse limite. O jovem, mesmo detendo de autonomia ou maturidade o suficiente para conhecer, divergir e decidir por si próprio, acaba apenas por reproduzir os comportamentos dados como comuns em seu dia-a-dia – estes, tanto positivos quanto negativos –, simplesmente pela força da coesão grupal; resultando na sua discriminação e incriminação equivalente, independentemente de sua pretensão ou resignação. No referido exemplo, pode-se perceber lucidamente o que Norbert e John propiciaram enfatizar com seu estudo, o qual caracterizaram de Estabelecidos-outsiders. As mesmas crianças, por estarem interligadas entre si dentro do seu meio habitual, compartilham comportamentos e seguem regras estipuladas pelo grupo, para que não se eximam dele ou não o enfraqueçam, consolidando assim seu próprio Establishment (Estabelecidos). Por outro lado, ao estarem suprimidas da outra parcela da sociedade cuja situação econômica e social é mais relevante; para estes, sua configuração se altera para a de Outsiders, inobstante suas singularidades; pois, segundo o que a investigação demonstra: ao fazer parte de um grupo, o indivíduo é julgado puramente por pertencer a ele. A segregação provém de uma força coesiva sobre a outra. Nasce com o ser como ferramenta de seleção, defesa e autoafirmação.
Publicado
2019-01-04
Seção
Ciências Jurídicas e Sociais - Resumo Expandido