DISCURSOS E PRÁTICAS NA ATENÇÃO AO USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS

Perspectivas sobre a Redução de Danos

  • Alana Oliveira da Cunha Centro Universitário da Serra Gaúcha
  • Maiton Bernardelli

Resumo

INTRODUÇÃO/FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: As concepções quanto ao uso de substâncias, bem como as formas de atenção às pessoas que apresentam prejuízos decorrentes, atravessam as transformações sociais. A Redução de Danos (RD) é compreendida como um conjunto articulado de possibilidades em saúde, que tem por objetivo diminuir os danos relacionados ao abuso de SPA’s (ELIAS e VISCONTI, 2018). Uma política de saúde pública norteada pelo cuidado em liberdade e pelo respeito à autonomia, que busca construir formas de cuidado junto com a pessoa, adequadas ao seu contexto. Como paradigma ético-político norteador, embora tenham emergido esforços para a instituição da RD na Política de Atenção Integral aos usuários de substâncias psicoativas (SPA’s), ainda restam desafios no modo como este processo vem se configurando (SOUSA, 2018). Dentre os enfrentamentos atuais tem se o desconhecimento e a distorção quanto ao sentido da RD, influenciado por discursos contraditórios aliados ao proibicionismo, com enfoque na abstinência, que reverbera frente ao conservadorismo político, e também prevalece na concepção da sociedade brasileira, a qual almeja a cura normativa do indivíduo (GOMES et al., 2018). Investigar o sentido atribuído à RD através dos discursos de seus atores sociais se faz fundamental para a compreensão das reverberações na atenção integral às pessoas que fazem uso problemático de substâncias psicoativas. MATERIAL E MÉTODOS: Trata-se de uma pesquisa de característica qualitativa, cuja estratégia analítica é o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), que constitui – se como método específico para a investigação científica de representações sociais pela via dos depoimentos (LÈFEVRE, 2017). Como fonte de dados, foram selecionados três documentários disponíveis na plataforma digital Youtube: “Redução de Danos – Caminhos e sentidos”, “Crack – Repensar” e “Pedras no Caminho”. A escolha dos materiais justifica-se por contemplarem os temas do objeto de pesquisa, bem como por serem constituídos de narrativas e discursos dos atores sociais. A coleta de dados dos depoimentos corresponde ao registro literal das verbalizações compatíveis aos questionamentos vinculados aos objetivos específicos da pesquisa, como: “Quais as percepções de usuários e profissionais sobre o uso de substâncias psicoativas?” e “quais os discursos relacionados à prática de redução de danos e como tais discursos reverberam nas práticas de atenção ao uso de substâncias psicoativas?”. A análise divide-se na extração de expressões chaves (EC) que correspondem aos significantes de conteúdos. A identificação das EC fundamenta a contribuição de cada indivíduo para o pensamento da coletividade e posteriormente servem como subsídio para o conteúdo dos DSC. Tais dados possibilitam que ocorra o processo de ancoragem, que consiste no reconhecimento de ideias centrais e ideologias que embasam o exposto. As crenças identificadas obtidas por indução são expostas em categorias de sentido conforme preconiza o método. O Discurso do Sujeito Coletivo prevê que a discussão dos resultados corresponda à reconstituição do pensamento coletivo quanto às ações de RD para substâncias psicoativas, através da reunião do conjunto dos conteúdos e dos argumentos presentes nas respostas de sentido semelhante que foram agrupadas em uma categoria, sendo, portanto descrita em primeira pessoa do singular para justificar a expressão direta do pensamento coletivo. RESULTADOS E DISCUSSÕES: Os resultados preliminares apontam que diante dos discursos contraditórios sobre Redução de Danos voltados ao uso de substâncias psicoativas, reverberam no contexto social que tenciona para a marginalização desses sujeitos, destituindo suas dignidades como seres singulares e desejantes. Discursos proibicionistas reforçam práticas estigmatizantes que submetem os sujeitos à estados de “vida nua”, no sentido de Giorgio Agamben (2007) onde as pessoas passam ser objeto de intervenções do Estado, sucumbindo o direito à liberdade.  Pesquisar as representações sociais que tangem a prática da RD, apresenta-se como uma possibilidade de tecer relações entre teoria e prática. Ademais possibilita analisar como tais concepções repercutem nas práticas de atenção ao uso de substâncias psicoativas e quais os seus efeitos na coletividade.

 

 

REFERÊNCIAS

AGAMBEN, G. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2007.

ELIAS, Gabriel Santos; VISCONTI, Harumi. Droga é caso de política: guia de bolso para debates sobre política de drogas. 1. ed. Plataforma Brasileira de Política de Drogas, 2018. E-BOOK.  Disponível em: http://pbpd.org.br/publicacao/guia-de-bolso-para-debates-sobre-politica-de-drogas/. Acesso em: 20 de maio de 2019.

GOMES, Camila Sthefanie de Matos; PIRES, Daniela Fernandes; SONCINI, Fernanda; SILVA, Patrícia Carvalho. Considerações críticas sobre a política proibicionista de drogas. In: SURJUS, Luciana Togni de Lima e Silva et al. Drogas & direitos humanos: protagonismo, educação entre pares e redução de danos. 2018. E – BOOK. Disponível em: http://edelei1.hospedagemdesites.ws/edelei/portfolio/3465/. Acesso em: 15 de maio de 2019

LEFÈVRE, Fernando. Discurso do sujeito coletivo: novos modos de pensar nosso eu coletivo. 1. Ed. São Paulo: Andreoli, 2017.

SOUSA, Tadeu de Paula. Estado e sujeito: a saúde entre a macro e a micro política de drogas. 1. ed. São Paulo: Hucitec Editora, 2018. 348 p.

Publicado
2020-02-18
Seção
Saúde e Ciências Agroveterinárias - Resumo Expandido