INDICADORES DE CAUSAS DE ÓBITO EM PESSOAS VIVENDO COM HIV/AIDS

  • Maiton Bernardelli Centro Universitário da Serra Gaúcha
  • Tonantzin Ribeiro Gonçalves

Resumo

INTRODUÇÃO/FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A partir da implantação do acesso universal da terapia antirretroviral pelo Sistema Único de Saúde, em 1996, observa-se que o tratamento eleva a sobrevida das pessoas vivendo com HIV/Aids (PVHA) alterando os padrões de mortalidade. Compreender essas alterações possibilita restituir enfrentamentos relacionados a estigmas e preconceitos em torno da doença que, quando de sua emergência nos anos 80, carregava a simbologia do desfecho de óbito como única possibilidade. Investigações sobre mortalidade em PVHA tem apontado causas de óbito cada vez mais devido a condições crônicas comuns e não à própria infecção pelo HIV (BURCHELL et al., 2019). MATERIAL E MÉTODOS: Este recorte é parte de um projeto de doutorado em andamento na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), intitulado “Indicadores espaço temporais e fatores de risco associados à mortalidade em mulheres vivendo com HIV”. Objetivo do estudo principal é investigar a incidência, distribuição espacial e fatores de risco para mortalidade em mulheres vivendo com HIV que tiveram, no mínimo, uma gestação ao longo da vida, residentes na cidade de Porto Alegre/RS, no período de 2007 a 2017. Neste recorte apresentamos os resultados de revisão integrativa da literatura buscando apontar os principais estudos sobre indicadores da mortalidade relacionada e não relacionada ao HIV/AIDS em pessoas vivendo com o diagnóstico. RESULTADOS E DISCUSSÕES: Destaca-se que a maioria dos óbitos relacionados ao HIV/Aids ocorrem mais em pessoas jovens, com baixas condições socioeconômicas, menor contagem de células T CD4 e cargas virais elevadas (PALELLA et al., 2006), e ou em mulheres casadas e negras (TREPKA et al., 2015). No Brasil, indivíduos não brancos foram identificados como mais propensos a ter registro de mortalidade por HIV/Aids em relação aos brancos (REZENDE et al., 2010). Coinfecções por tuberculose (DONALISIO e CORDEIRO, 2017), doenças do fígado e hepatite C (KLEIN, et al., 2014) e doenças oportunistas (DJAWE et al., 2015), são recorrentes quando as taxas de T CD4 estão abaixo das 200 células/mm3 e a carga viral permanece elevada, aumentando riscos de óbito. No Brasil destacam-se como três principais causas de morte relacionadas à Aids: a tuberculose, o citomegalovírus e a criptococose, sendo que o sarcoma de Kaposi e o linfoma não-Hodgkin apareceram como malignidades relacionadas ao óbito por Aids (GRINSZTEJN et al., 2013). Entre as principais causas de óbito não relacionadas ao HIV/Aids estão as neoplasias, doenças do aparelho circulatório, doenças do sistema digestivo e diabetes mellitus (REZENDE et al., 2010), além de infecções oportunistas (PALELLA, et al., 2006) doenças reprodutivas (YANG et al., 2008) e causas externas (LAU et al., 2007). Idade avançada se apresentou associada a óbitos não relacionados ao HIV/Aids, sendo, especialmente, causadas por neoplasias e doenças do fígado (WEBER et al., 2006). Esses dados revelam que o uso da TARV estende a expectativa de vida das PVHA, cujos óbitos passam a decorrer de morbidades relacionadas ao envelhecimento e ou de causas externas (DOMINGUES e WALDMAN, 2014) assemelhando-se às principais causas de mortalidade na população geral (LOZANO et al., 2012). CONCLUSÃO: A alteração dos padrões de mortalidade relacionada à aids tem revelado a exposição à violência e à vulnerabilidade social, destacando-se os óbitos por causas externas, especialmente, pela violência urbana. Observa-se reflexos das desigualdades sociais uma vez que pessoas brancas, com um diagnóstico precoce para HIV, são as mais propensas a morrer de causas não relacionadas ao HIV/Aids.

REFERÊNCIAS

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Publicado
2020-02-19
Seção
Saúde e Ciências Agroveterinárias - Resumo Expandido