USO DE AGROTÓXICOS NA AGRICULTURA FAMILIAR DA SERRA GAÚCHA E OS POTENCIAIS RISCOS AMBIENTAIS.

  • Ana Paula de Lima Carmen Basso
  • Rafela Santi Dell’Osbel
  • Ramisson dos Santos
  • Cleber Cremonese

Resumo

INTRODUÇÃO/FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Define-se agrotóxicos como substâncias nocivas a agentes vivos utilizados no controle de pragas em lavouras do agronegócio e da agricultura familiar (OLIVEIRA, 2018). Nesse contexto, a demanda de produtos químicos tem aumentado a nível mundial e nacional, sendo o Brasil um dos principais consumidores nesta última década (PIGNATI, 2017). Muitas pesquisas apontam que seu uso traz malefícios à saúde humana, e principalmente aos agricultores devido a sua exposição ocupacional, além de causar demasiada contaminação na cadeia ambiental (LOPES,2018; MAIA, 2018). Portanto, este estudo apresenta como objetivo descrever um perfil de uso de agrotóxicos em trabalhadores da agricultura familiar, em um município da Serra Gaúcha, e seu possível dano ao ambiente e ao ecossistema. MATERIAIS E MÉTODOS: Trata-se de um epidemiológico observacional com abordagem descritiva transversal, composto por trabalhadores rurais e seus familiares, residentes de um município da Serra Gaúcha. A amostra foi coletada por conveniência, sendo recrutados no total 122 indivíduos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) do Centro Universitário da Serra Gaúcha – FSG, sob o parecer 1.914.198 e todos os participantes assinaram do termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Foi utilizado um questionário estruturado e validado, aplicado por entrevistadores treinados em uma sala reservada, garantindo a privacidade das respostas e conforto dos participantes. O banco de dados foi estruturado por meio do programa SPSS Statistic Data 23.0 (Statistical Package for Social Sciences), no qual, posteriormente foram realizadas as análises estatísticas descritivas. RESULTADOS E DISCUSSÕES: Dos 122 entrevistados, 11,5% utilizaram agrotóxicos nos últimos 7 dias, e 28,7% nos últimos 30 dias. Em relação as culturas produzidas, 88,5% cultivam uva, 4,1% caqui e 2,5% legumes. Na última vez que aplicaram agrotóxicos, 54,5% ficaram até duas horas aplicando. Referente aos tipos utilizados recentemente, 32,0% fizeram uso de fungicida, 29,5% de herbicida, 14,8% de inseticida e 10,7% fizeram uso de outros tipos de agrotóxicos. No Paraná, observa-se que os herbicidas são os agrotóxicos mais utilizados (66,2%), seguidos pelos inseticidas (14,5%), fungicidas (10,9%), acaricida (3,6%) e outros. No mesmo estudo, verifica-se que os maiores cultivos na região são soja (49,9%), milho (21,0%) e trigo (18,5%) (GABOARDI, CANDIOTTO e RAMOS, 2019). Entretanto, no presente estudo, referente ao uso frequente de agrotóxicos, 75,4% afirma utilizar fungicida, 75,4% ditiocarbamatos, 73,0% herbicida, 67,8% inseticida, 63,1% orgonofosforados, 50,8% piretróides e 76,2% fazem uso de outros grupos. De acordo com um estudo realizado no Acre, dentre os agrotóxicos mais utilizados, encontram-se inseticida (Folidol®), herbicida (Roundup®) e piretróides (Karate®) (GREGOLIS, PINTO e PERES, 2012). Ainda, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2014, o percentual da comercialização de agrotóxicos por sua classificação de uso foi 58,0% de herbicidas, 10,6% de fungicidas, 12,3% de inseticidas, 1% de acaricidas e 18,1% de outros produtos (IBGE, 2014). Sugere-se que a variação dos tipos de agrotóxicos utilizados ocorra devido a grande área geográfica do país, bem como, os diferentes cultivos em cada região. Sabe-se que os agrotóxicos, por sua natureza e propósito, são venenos, e embora sejam utilizadas pequenas e reguladas dosagens, seu impacto no ambiente pode ser prejudicial (SILVA e FAY, 2004). O Brasil, comparado a outros países, ainda é extremamente permissivo quanto ao uso de agrotóxicos. Além de contaminar o solo e a água, afetam as plantas, que são considerados os produtores da cadeia alimentar, o que pode causar desequilíbrios ecológicos em plantas, animais e ecossistemas (GABOARDI, CANDIOTTO e RAMOS, 2019). CONCLUSÕES: Diante do exposto, acredita-se que o uso de agrotóxicos ainda está em crescimento na agricultura familiar, sendo estes potenciais causadores de danos ambientais e ao ecossistema.

REFERÊNCIAS 

GABOARDI, S. C.; CANDIOTTO, L. Z. P.; RAMOS, L. M. Perfil do uso de agrotóxicos no sudoeste do Paraná (2011–2016). Revista Nera, n. 46, p. 13-40, 2019. Disponível em: http://revista.fct.unesp.br/index.php/nera/article/view/5566/4677.

GREGOLIS, T. B. L.; PINTO, W. d. J.; PERES, F. Percepção de riscos do uso de agrotóxicos por trabalhadores da agricultura familiar do município de Rio Branco, AC. Revista brasileira de Saúde ocupacional, v. 37, n. 125, 2012.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Indicadores de Desenvolvimento Sustentável. 2014.

LOPES, C. V. A.; ALBUQUERQUE, C. S. G. Agrotóxicos e seus impactos na saúde humana e ambiental: uma revisão sistemática. Saúde Debate, v. 42, n. 117, p. 518-534, 2018.

MAIA, J. Perfil de intoxicações dos agricultores por agrotóxicos em Alagoas. Diversitas Journol, v.3, n.2, p.486-504, 2018.

PIGNATI, W. A. et al. Distribuição espacial do uso de agrotóxicos no Brasil: uma ferramenta para a Vigilância em Saúde. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro, v. 22, n. 10, p. 3281-3293, Oct. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232017021003281&lng=en&nrm=iso.

SILVA, C. M. M. S.; FAY, E. F. Agrotóxicos: aspectos gerais. Agrotóxicos e Ambiente, p. 17-74, 2004

OLIVEIRA, C. C. M. F. et al. Período de decaimento em diferentes temperaturas do agrotóxico metil paration em uvas. Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade, v. 11, n. 1, 2018.

Publicado
2019-06-14
Seção
Saúde Pública: estratégias de saúde familiar, promoção de saúde pública, epidemiologia, vigilância sanitária e ambiental